24.7.08

Por que não dizer adeus?

- Você tem que ser forte agora, tá?
- M-mas... por quê?
- Porque eu vou embora. Pra sempre. Mas sempre vou pensar em ti. Sempre vou te amar.
- Mas se tu me ama, por que vai me abandonar?? O que foi que eu fiz pra ti? Tu não me ama mais???
- Já disse que eu te amo, sim. Mas tenho que te deixar.
- Mas... por quê... por quê... o que eu fiz... Meu Deus...
- Não tem nada a ver com Deus. Cada um segue o seu caminho agora.
- Mas eu não tenho pra onde ir... sem ti eu não tenho pra onde ir... eu vou morrer!
- Não vai morrer. Vai continuar vivendo, e eu também.
- Mas se a minha vida não seguir com a tua, eu não sei o que vai me acontecer! Eu não tenho rumo, eu preciso de ti!
- Não posso fazer nada, tu tem que seguir este caminho, e eu vou por aquele.
- Mas por que isso??
- Porque é a hora de dizer adeus.
- Mas essa hora não existe! Não existe! Eu não quero! Pára!
- O que tu quer que eu faça? As coisas são assim!
- Não são! Não precisam ser assim! Tu sabe que não! Podemos seguir juntos!
- Não podemos não! Eu não posso!
- Não me deixa, por favor! Eu vou morrer!
- O que tu quer que eu faça? Que eu minta pra ti? Quer que eu diga que estou indo e que já volto? É isso que tu quer, que eu minta pra ti?
- Não!
- Quer passar o resto da vida esperando por mim? Quer?
- Eu espero!
- Mas eu não vou voltar. Tu vai esperar em vão.
- Não vai embora... eu não vou sair daqui até tu voltar.
- Vai esperar o resto da vida, então.

E foi embora sem dizer adeus. E nunca mais voltou. E aquela espera. Aquela espera. Uma espera que não tinha, por Deus, não tinha mais fim. Aquela espera que fez o vento soprar forte para o lado inverso. Que secou a vegetação dos campos, que dizimou as montanhas e fez ebulir as águas do mar.

Foi aquela espera que espeliu o Universo.


* * *
Amigos, a casa aqui ficou vazia. Estou me mudando para uma nova. Venham me visitar. Ali, tudo é mais claro, as paredes, a vista. Tudo é um pouco mais alegre. Estou deixando o passado aqui, mas para recomeçar logo ali. Espero que sigamos juntos por aí : )

Clica aqui, pra não te arrepender

14.7.08

Domingo no litoral

Eis um videozinho piegas, mas inteiramente feito por mim. Enjoy.

13.7.08

O louco da Vila


Dia desses, voltei a circular pelas ruas silenciosas e floridas da Vila do IAPI, onde me criei. Ali meus pés, ao pisarem nas folhas secas, se sentiram naquele mesmo tapete colorido dos meus tempos de guria, há duas décadas atrás. É bem verdade que a Vila cresceu, e hoje é cercada de grandes edifícios, faculdade, pista de skate; mas por dentro, no coração, preserva sua essência. E traz boas lembranças.

É impossível passear por ali sem lembrar das histórias e dos personagens que, nas mentes férteis das crianças, misturavam realidade com imaginação. Pois lhes contarei uma delas. A história do louco do IAPI.

Tinha eu uns nove anos quando minha mãe voltou a trabalhar fora. Assim, eu teria que ir sozinha para a escola, em um trajeto que durava, no máximo, dez minutos. Mas eu morria de medo do louco do IAPI, um sujeito assustador que circulava pela avenida dos Industriários. O louco, dizia a lenda, era filho de um distinto morador do IAPI, um senhor muito trabalhador que morava numa casa branca, na parte baixa da rua Rio Pardo. Não sei ao certo dizer como o louco ficou louco, mas, conforme a lenda, ele teria fugido de casa e passado a viver como andarilho nas ruas da Vila.

O louco andava sempre muito sujo, barbudo e andava pra lá e pra cá falando sozinho. Mas ninguém entendia o que ele falava, era só um rrrrroarrr rrrroarrr. Ele não se metia com ninguém, às vezes sentava no cordão da calçada e comia um pão que lhe davam. Mas, na minha imaginação, ele significava perigo. Em algum momento, ele deixaria de querer falar sozinho e passar dialogar naquele rrrrroarrr rrrroarrr com alguém. Pois lhes digo que, um dia, foi exatamente isso que aconteceu.

Eu ia para a escola com um capuz na cabeça, para que o louco não me visse. Em qualquer sinal de perigo, eu corria o mais rápido possível para o colégio, e chegava ofegante, sem ninguém entender o porquê. Naquele dia, a professora nos liberou da aula para ensaiarmos a peça do Sítio do Pica-pau Amarelo. A maioria do nosso grupo – éramos uns sete ou oito – queria ir ensaiar na casa do Jefão, porque era perto da escola, e a mãe do Jefão sempre fazia uns quitutes para a gente comer. O problema era que teríamos que atravessar o bairro sozinhos, e o louco podia aparecer. Alguns foram contra, mas a maioria ganhou: o ensaio seria na casa do Jefão.

– AimeuDeus – eu pensei. E lá fomos nós. Passamos pela pracinha, que saía na Industriários, ao lado do parque Alim Pedro. Cruzamos então a avenida, que dava na biblioteca, e já estávamos a uma quadra da casa do Jefão, quando o louco surgiu na nossa frente.

– Rrrroarrrr! – Disse o louco. Nós ficamos todos paralisados. Eu, a Luli, os irmãos Visco e Visca, a Sapinho, o Jefão vestido de Visconde de Sabugosa, o João e o Maiqui, que só foi no ensaio por causa dos quitutes. Mas o silêncio foi interrompido em instantes pelo João:

– Hã... Qual teu nome?
– Rrrroarrrr. Jorgê.

Ficamos pasmos.

– Tu gosta de teatro, Jorgê? – perguntou nossa diretora da peça, Luli.

De repente, o louco começou a rir e a girar em torno de si mesmo, e logo depois sentou-se no chão. Nós nos entreolhamos, e decidimos ensaiar a peça ali mesmo, com muita guerrinha de purpurina (que era o nosso pó de Pirlimpimpim).

Depois desse dia, nunca mais houve outro em que não cruzássemos com o louco sem o cumprimentarmos:

– E aí, Jorgêê!
– Rrrroarrrr!

E assim foi como o louco (que não era tão louco assim) virou nosso amigo. E a Vila do IAPI ainda seria palco de tantas outras aventuras, mas isso é uma outra história.

A mais linda dos últimos tempos

Não, isso não é uma inédita de Henry Cartier-Bresson. Esta foto foi tirada no mês passado em Annapolis, pela minha amiga e brilhante fotógrafa Cristina Espinoza.

Mais linda que fotografia, só a fotógrafa mesmo, mas ela é hors concours.

16.6.08

Eu, repórter inexperiente

Era Dia dos Namorados e eu não tinha muita escolha: teria que realizar a minha primeira matéria como repórter. Em vez de jantar romântico à luz de velas e rosas vermelhas pra presente, muito, mas muito trabalho. Fui ao programa de maior audiência da Atlântida, o Pretinho Básico, pra conhecer o que rolava nos estúdios e que nunca vemos, só imaginamos. E também para conhecer as namoradas daqueles guris que são umas figuras. Dá uma olhada e vê o que rolou...

15.6.08

Vamos tomar um café?

Eu pago. Faço questão. Mas tem que ser daqueles expressos com uma "espuminha", como o da foto. Tá, prefere capuccino, tudo bem. Eu não gosto. Pra mim, café tem que ser preto e puro, sem firulas. Com selinho da Abic e tudo, como dizem na propaganda.

Adoro café. E adoro ir a cafés tomar café. É um programa charmoso e saboroso. E cheiroso com cheirinho de café. Sabe o Café TVCOM? Adoro o Café TVCOM. Aquela mistura de café, livros, dvds, cds, filmes, mais café, alguma guloseima e aqueles apresentadores amáveis e sabichões. Confesso que adoraria participar do Café TVCOM, sei que pode parecer exibicionismo, mas eu nem queria aparecer, apenas tomar café e ouvi-los conversando sobre coisas interessantes.

Eis a minha proposta para os amigos leitores do blog, se é que já não desistiram de entrar no blog e não achar nada de interessante. Agora tem, esta promoção: tome um café comigo. É só dizer quando e onde. Se for só o café, eu pago, mas sem essas patisseries. Só um café e uma prosa bem boa. Topam?

Sobre o falar e ouvir

Por essência, sou uma ouvinte. E enfrentei muitas dificuldades. O mundo é dos que falam. Falar bem é uma arte. Há a oratória. Há os parlamentares. Há os parlapatões.

A rigor, não existe, a despeito dos que ouvem, uma arte de bem ouvir. Na prática, limpe as suas orelhas e boa sorte. Mas não é assim.

Na escola, me perguntavam para qual curso eu faria vestibular. "Jornalismo", eu disse. "Tuuuu??? Mas tu não fala!" Eu falava sim, oras, mas apenas o essencial. E pensava muito antes de falar. Pensava tanto que, às vezes, desistia.

Eu olhava os que falavam e pensava "como falam bem", "como falam coisas engraçadas", "como falam merda", etcétera. Quando eu tinha que falar, era um acontecimento. "Psssit, silêncio! Ela vai falar, ela vai falar!" Eu falava, eu tremia, eu enrubescia. Era um grande problema para mim. Para os outros, parecia ser o contrário. Falavam às ganhas, contavam piadas, eram líderes, eram popstars. Mas não pareciam querer ouvir. Ouvir era chato. Ouvindo, perdia-se tempo em que se poderia estar falando.

Isso me lembra de dois personagens da vida real e do jornalismo literário: Joe Gould e Joseph Mitchell. Em "O segredo de Joe Gould", conhece-se dois tipos extremos de personalidade. Por um lado, Gould com sua loucura e sua mania de só falar de si, de si e de si. De outro lado, o repórter Mitchell, um ouvinte que permaneceu impávido diante daquele outro que só falava dele, dele e dele.

Como Mitchell não enlouqueceu? É só o que me perguntava ao ler o livro. A paciência do jornalista da The New Yorker era angustiante. Mas hoje penso como seria útil, para a sociedade, para o jornalismo, para a literatura, para o mundo melhor que todos desejam, que houvesse mais e melhores ouvintes. Afinal, o que é o discurso sem alguém que o ouça?

As pessoas estão, definitivamente, migrando para o mundo insano de Gould. Só falta abrirem a lata de ketchup e comê-la inteira, sem nenhuma batata frita para acompanhar.